Dito isso, logo que cheguei aqui na Carolina do Norte eu notei uma coisa muito estranha. Parece que aqui as pessoas não se misturam. Não sei se isso acontece no país inteiro ou se é meio regional, remanescente da guerra da secessão, mas é muito raro ver negros, brancos e latinos andando juntos e jogando conversa fora num bar (e isso é particularmente verdadeiro se você está longe da região do campus). Pior que isso, parece que existe uma certa raiva oculta, uma tensão entre classes e etnias que faria a guerra-fria parecer um jogo de poker entre amigos. Ah, as pessoas aqui são educadas e se tratam com respeito em situações cotidianas, mas eu sinceramente tenho medo de ver o que acontece quando esses grupos entram em conflito e fico imaginando quantos desses sulistas tão simpáticos que vemos por aqui seria capaz de deixar de lado a "mentalidade de grupo" na hora de lidar com conflitos pessoais.
Não que eu seja ingênua a ponto de achar que não existe preconceito no Brasil, mas aqui nos EUA a coisa toda extrapolou minha capacidade de processamento. No Brasil eu tenho a sensação que em geral as pessoas não levam o preconceito à sério (para o bem e para o mal) enquanto aqui parece que a maioria das pessoas leva isso tão a sério que é como se a única saída para a igualdade fosse criar um estado separado para cada minoria. Nesse ponto, eu acho que o tal "jeito brasileiro" e a nossa mistureba cultural é melhor do que essa organização bizarra que tenho visto por aqui, com grupos separados por cor, classe, credo, visão política e tipo de organização familiar.
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| Placas como essa estão espalhadas por várias casas da vizinhança. |
Antes eu estava falando sobre etnia, mas a questão não se restringe a isso. Uma coisa que reparamos pouco depois de chegar é que está rolando uma polêmica sobre uma tal de "amendment one" que está pra ser votada. Aqui perto da universidade tem um monte de gente que parece ser contra isso e, no começo, eu achava que tinha a ver com aumento de impostos ou algo assim. Bom, não tem nada a ver com impostos. A tal Amendment One, se aprovada, vai fazer com que arranjos familiares que não envolvam apenas o casamento entre homem e mulher não sejam reconhecidos pela constituição da Carolina do Norte. Minha primeira reação quando soube do que isso se tratava foi pensar "que tipo de australopiteco propôs uma coisa dessas em pleno século XXI? Ninguém vai votar a favor dessa idiotice!". Mas depois de ver algumas manifestações APOIANDO a emenda constitucional, só o que eu consigo pensar é "AINDA BEM que tem gente votando contra, só espero que eles sejam maioria!"
Daí vem aquele papo de que, numa democracia, até quem tem esse tipo de opinião medieval tem o direito de expressá-la. Ok, eu entendo isso. As pessoas tem todo o direito de exercer a própria idiotice numa democracia. O que me perturba é ver o Estado aprovando esse tipo de comportamento retrógrado na constituição de um lugar que ainda tem tantos preconceitos pra vencer. Quer dizer, da mesma forma que um pai que não educa seus filhos fatalmente terá filhos delinquentes, um governo que admite um retrocesso desses em nome de certos eleitores não pode esperar muito desenvolvimento.
A verdade é que eu não sei o que é certo ou errado, eu não se a minha percepção do preconceito daqui (e do Brasil) tá completamente equivocada, eu não sei como vai ser a tal votação da emenda constitucional e sei menos ainda sobre como deve ser governar alguma coisa em algum lugar. Só o que sei é que sinto falta dos meus amigos de todas as cores, formas, lugares, jeitos e opiniões e gostaria muito que o pessoal por aqui tivesse a mesma oportunidade de se "misturar" e conhecer gente bacana que eu tive. Diversidade é uma maravilha e é uma pena quando as pessoas não se aproveitam dela... :(

Arguto, Juliana. Gostei bastante.
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