segunda-feira, 30 de abril de 2012

Preconceito nos EUA

Como paulistana de classe média, heterossexual e quase "caucasiana" eu acho que não tenho muita moral de falar sobre preconceito, considerando que nunca me senti pessoalmente discriminada a ponto de querer iniciar um movimento de conscientização ou algo do tipo. O que eu sei que posso (e devo) fazer é tratar as pessoas com o respeito que eu gostaria de ser tratada, independente de cor, credo, visão política ou orientação sexual. Nem sempre é uma tarefa fácil (até porque esse mundo tá cheio de gente idiota), mas a longo prazo é muito melhor pra própria consciência saber que você não é uma pessoa estúpida e limitada pelo próprio preconceito.

Dito isso, logo que cheguei aqui na Carolina do Norte eu notei uma coisa muito estranha. Parece que aqui as pessoas não se misturam. Não sei se isso acontece no país inteiro ou se é meio regional, remanescente da guerra da secessão, mas é muito raro ver negros, brancos e latinos andando juntos e jogando conversa fora num bar (e isso é particularmente verdadeiro se você está longe da região do campus). Pior que isso, parece que existe uma certa raiva oculta, uma tensão entre classes e etnias que faria a guerra-fria parecer um jogo de poker entre amigos. Ah, as pessoas aqui são educadas e se tratam com respeito em situações cotidianas, mas eu sinceramente tenho medo de ver o que acontece quando esses grupos entram em conflito e fico imaginando quantos desses sulistas tão simpáticos que vemos por aqui seria capaz de deixar de lado a "mentalidade de grupo" na hora de lidar com conflitos pessoais.

Não que eu seja ingênua a ponto de achar que não existe preconceito no Brasil, mas aqui nos EUA a coisa toda extrapolou minha capacidade de processamento. No Brasil eu tenho a sensação que em geral as pessoas não levam o preconceito à sério (para o bem e para o mal) enquanto aqui parece que a maioria das pessoas leva isso tão a sério que é como se a única saída para a igualdade fosse criar um estado separado para cada minoria. Nesse ponto, eu acho que o tal "jeito brasileiro" e a nossa mistureba cultural é melhor do que essa organização bizarra que tenho visto por aqui, com grupos separados por cor, classe, credo, visão política e tipo de organização familiar.

Placas como essa estão espalhadas por várias casas da vizinhança.
Antes eu estava falando sobre etnia, mas a questão não se restringe a isso. Uma coisa que reparamos pouco depois de chegar é que está rolando uma polêmica sobre uma tal de "amendment one" que está pra ser votada. Aqui perto da universidade tem um monte de gente que parece ser contra isso e, no começo, eu achava que tinha a ver com aumento de impostos ou algo assim. Bom, não tem nada a ver com impostos. A tal Amendment One, se aprovada, vai fazer com que arranjos familiares que não envolvam apenas o casamento entre homem e mulher não sejam reconhecidos pela constituição da Carolina do Norte. Minha primeira reação quando soube do que isso se tratava foi pensar "que tipo de australopiteco propôs uma coisa dessas em pleno século XXI? Ninguém vai votar a favor dessa idiotice!". Mas depois de ver algumas manifestações APOIANDO a emenda constitucional, só o que eu consigo pensar é "AINDA BEM que tem gente votando contra, só espero que eles sejam maioria!"

Daí vem aquele papo de que, numa democracia, até quem tem esse tipo de opinião medieval tem o direito de expressá-la. Ok, eu entendo isso. As pessoas tem todo o direito de exercer a própria idiotice numa democracia. O que me perturba é ver o Estado aprovando esse tipo de comportamento retrógrado na constituição de um lugar que ainda tem tantos preconceitos pra vencer. Quer dizer, da mesma forma que um pai que não educa seus filhos fatalmente terá filhos delinquentes, um governo que admite um retrocesso desses em nome de certos eleitores não pode esperar muito desenvolvimento.

A verdade é que eu não sei o que é certo ou errado, eu não se a minha percepção do preconceito daqui (e do Brasil) tá completamente equivocada, eu não sei como vai ser a tal votação da emenda constitucional e sei menos ainda sobre como deve ser governar alguma coisa em algum lugar. Só o que sei é que sinto falta dos meus amigos de todas as cores, formas, lugares, jeitos e opiniões e gostaria muito que o pessoal por aqui tivesse a mesma oportunidade de se "misturar" e conhecer gente bacana que eu tive. Diversidade é uma maravilha e é uma pena quando as pessoas não se aproveitam dela... :(

sábado, 28 de abril de 2012

Trabalhos iniciados com força total.

As primeiras semanas de trabalho em Raleigh começaram com força total. Desde o início da abril, já foram dois workshops e uma porção de trabalhos de campo.

Foto 1: Workshop em Asheville.
O 1º workshop (foto 1) foi em uma cidade chamada Asheville, localizada na porção montanhosa da Carolina do Norte. Foram três dias dedicados ao processo de certificação de profissionais que trabalham com obras do DOT, o depto. estadual de transportes daqui (http://www.ncdot.gov/). Nesta breve estadia em Asheville também dedicamos um dia para ajudar a Virginia (foto 2), uma das alunas de mestrado do Depto. de Ciências do Solo, com os seus ensaios de campo.
Foto 2: Virginia pronta para o trabalho.

Em seu mestrado, a Virginia está analisando o desenvolvimento de um certo tipo de grama (fescue) quando aplicado em solos compactados e com diferentes concentrações de nutrientes. Os resultados da sua pesquisa ajudarão a determinar as condições mais favoráveis para o plantio e o desenvolvimento desse tipo de grama em áreas de construção (é, por exemplo, o que se observa nos taludes e no canteiro central das rodovias em construção).

De volta à Raleigh, nos organizamos para ajudar nos ensaios do Scott (foto 3), um dos pesquisadores da equipe. Graduado em Ecologia e mestre em Ciências do Solo, Scott envolvido em pesquisas voltadas para reduzir a carga de sedimentos que são carreados pela água das chuvas de áreas em construção para os rios e reservatórios da região.
Foto 3: Scott preparando seu experimento.
Para isso, o Scott tem estudado os efeitos de um polímero (poliacrilamida ou simplesmente PAM) sobre a qualidade da água. Em estudos anteriores realizados por colegas do Depto. mostraram que, sob certas condições, o PAM ajuda a melhorar a qualidade da água de forma bastante significativa. Assim, o objetivo do Scott agora é justamente determinar quais são as condições que maximizam os efeitos positivos do PAM. Os resultados parciais dos seus ensaios já deram algumas pistas valiosas, mas logo logo os trabalhos serão concluídos e o Scott terá melhores condições para fechar mais esse quebra-cabeça.

O 2º workshop ocorreu um dia após ajudarmos o Scott com os seus experimentos. Melanie (foto 4), mestre em Ciências do Solo e pesquisadora do Depto., conduziu as atividades.
Foto 4: Melanie mostra os efeitos do PAM na água.
 No início, Melanie nos apresentou as principais técnicas utilizadas na Carolina do Norte para controlar erosões e diminuir a quantidade de sedimentos que podem assorear de maneira expressiva córregos, rios e reservatórios.
Em seguida, fomos para o campo colocar em prática alguns dos conceitos apresentados em sala de aula. Assim, trocamos canetas e apostilas por pás, martelos, mantas de fibra de coco e grampos metálicos. E claro que ao final do workshop estávamos todos cobertos por poeira e com os sapatos cheios de terra.

De fato, os pesquisadores daqui valorizam bastante o lado prático das coisas e, justamente por isso, nossas idas a campo por aqui têm sido quase que diárias.
Foto 5: Virginia durante o laboratório para a graduação.
Estão lembrados da Virginia, aluna de mestrado que ajudamos em Asheville? Olha ela aí de novo, desta vez dando aula de laboratório para os alunos de graduação da North Carolina State University (foto 5). Nesta aula, ajudamos a Virginia na preparação dos equipamentos que foram usados para mostrar aos alunos a importância de manter a superfície do solo protegida contra os efeitos negativos da erosão. Nesta aula os alunos também colocaram a mão na massa: protegeram a superfície do solo com diferentes tipos de material, preparam misturas de fertilizantes em diferentes proporções e também fizeram o plantio de grama (fescue) em uma área piloto.

Enfim, pode-se dizer que tem sido um começo e tanto. Nos próximos dias ajudaremos a Gina, nossa colega da Sérvia e aluna de mestrado de Ciências do Solo. As detalhes desse trabalho ficam para o próximo post, mas já posso adiantar que os trabalhos serão - é claro - novamente no campo. Bom, é isso aí. Grande abraço para todos e até a próxima.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Chegada em Raleigh, parte 2: Os outros dias...

Bom, depois do primeiro dia frenético em Raleigh, as coisas foram entrando nos eixos. Não que a rotina esteja muito menos frenética, mas pelo menos a coisa sossegou o bastante para ser resumida nesse post (ou eu é que estou com preguiça o bastante para não escrever outro hehehehe).

Açaí americano
Depois que a gente conseguiu se livrar do motel from hell, decidimos ficar aqui no atual hotel durante o mês inteiro just in case (até porque ia acabar compensando pagar o mês todo ao invés de passar mais de uma semana). Com isso, a gente teve tempo de se organizar, aprendemos a andar nos arredores da universidade e, logo no segundo dia, o Caio já foi numa reunião com a equipe que ele vai trabalhar. Como ele tava "com medinho" de ir sozinho, eu fui e fiquei lá esperando. Mal ele sai da reunião, a gente já foi logo procurar lugar pra morar com a ajuda de uma aluna maior legal vinda da Sérvia chamada Gina! Vimos uns 3 ou 4 apartamentos perto da universidade e pensamos ter encontrado nossa futura casa. Voltamos, almoçamos um lanche e, na volta para o hotel, eu achei algo que eu jamais imaginaria encontrar aqui: Açaí! Depois disso, descobrimos que tinha um shopping aqui perto e resolvemos ir lá, comprar suprimentos e jantar.

Farmácia minúscula
Chegando no shopping, achei tudo muito esquisito. Não é um prédio com lojas como no Brasil, mas um monte de quarteirões com lojas e restaurantes mas tudo térreo. A farmácia que tinha lá era gigantesca em comparação ao resto e parecia mais um supermercado. E lá fomos nós, depois de descolar uns chips de celular, ver qual a razão da farmácia ser tão grande. E a razão é que a farmácia era quase um supermercado mesmo! Só faltaram as verduras (mas isso falta quase em toda parte por aqui). Aproveitei que estava lá pra comprar alguma coisa para a suposta úlcera que eu estava cultivando desde a nossa chegada (não sei se foi da comida ou do stress, mas fiquei com uma dor de estômago brutal nos primeiros dias) e, em virtude da suposta úlcera, fomos procurar um lugar menos "gorduroso" para jantar. Por causa do horário, fomos parar num restaurante mexicano mesmo, mas olha, só ter ter arroz e feijão no cardápio a gente já ficou tão feliz que o dia nem pareceu tão corrido no final das contas.

E depois do segundo dia, a gente começou a ter uma rotina mais normal. Na quinta a gente mudou pra um quarto com geladeira e microondas e eu improvisei um arroz de microondas com feijão enlatado (Pinto Beans, mais precisamente). Caio começou a arrumar a sala dele no laboratório e descobriu que era feriado na sexta-feira santa por aqui também e aí a gente meio que comeu e dormiu durante o feriado todo (com pausas ocasionais para reconhecer o território/explorar a cidade). E finalmente essa semana, Caio foi para um workshop nas montanhas nessa terça-feira e só volta na sexta. Por isso, estou aqui atualizando o blog e fazendo todas as coisas que eu não faria se ele estivesse aqui (o que na verdade significa que estou conseguindo arrumar nossa bagunça).

Como agora tenho um computador para chamar de meu (o bonitinho chegou ontem), espero que as próximas atualizações não demorem tanto ou que, pelo menos, os causos não se acumulem!

Beijos pra quem fica e até a próxima!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Chegada em Raleigh, parte 1

Graças a Deus, hoje é sexta-feira santa (ou good friday, como dizem por aqui) e, depois de uns 4 dias bastante movimentados, finalmente estamos livres pra descansar um pouco e tentar comer comida de gente. Mas como descanso é para os fracos, aqui estou eu, escrevendo logo cedo para contar as aventuras que vivemos desde que chegamos aqui em Raleigh. Pra não me confundir ou esquecer dos detalhes, vou tentar seguir a ordem cronológica dos fatos. Por isso, acho que vou dividir esse post em vários outros, pra não ficar muito grande.

Dia 1:
"Kil" e seu cappuccino
Depois de quase 24 horas entre aeroportos e aviões, chegamos em Raleigh, mas não sem antes o Caio soletrar o nome dele como "Kil" no Starbucks do aeroporto de Charlotte e quase me matar de vergonha (a moça até perguntou se o nome dele pronunciava Kill mesmo). Não satisfeito, no mesmo aeroporto ele fez questão de pentelhar a garçonete do restaurante que a gente parou pra almoçar, só pra saber como ela pronunciaria o nome dele e, quando estávamos de saída, ele ainda quis saber dela se era necessário pagar gorjeta... Gafes à parte, chegando em Raleigh e resgatando nossas malas que estavam na salinha da companhia aérea, lá fomos nós pro nosso motel de beira de estrada.

Agora, sei que em geral as pessoas me acham meio exagerada e podem não acreditar em mim, mas tenho convicção de que algo muito bizarro aconteceu naquele quarto de motel, porque tinha manchas suspeitas nas paredes, na colcha e uma MUITO suspeita na cortina do banheiro (que acho que era sangue). Isso fora os fios de cabelo estranhos, os insetos e o fruit loop que achei atrás da cama. Até aí tudo bem, afinal sou brasileira e não desisto nunca, mas quando saímos para fazer aquele passeio de reconhecimento e tentar chegar na universidade eu percebi que não ia rolar dormir naquele quarto: Tinha um strip-club do lado do motel e um cara que encontramos no ponto de ônibus disse que não só estávamos longe da universidade, mas também que aquela vizinhança não era uma vizinhança que ele gostaria de estar durante a noite (if you know what I mean).

Não se aproxime muito dessa cortina...
Resultado: Pegamos o busão, chegamos no campus e descolamos um hotel barato porém digno nos arredores da universidade. Pedimos um táxi para buscar nossas malas no motel suspeito e fugimos de lá como diabo foge da cruz. Jantamos uma pizza gigante (e com um tempero bizarro) e fomos dormir exaustos, mas sem pegar chato e com a certeza de que nenhuma stripper seria brutalmente assassinada no quarto ao lado... (to be continued)

domingo, 1 de abril de 2012

Humanos só saem com o nosso consentimento!


Há apenas um dia da decolagem para os EUA, uma curiosa surpresa nos aconteceu. Nossos gatos, Indy, Sinatra e De Niro, estão em estado de alerta. Eles vigiam nossas malas, com direito a turno com rodízio e tudo mais.

É impressionante como esses pequenos mamíferos captaram que há alguma coisa no ar e que muito em breve algo mudará na rotina da nossa casinha. Os miados por carinhos estão mais frequentes, os cafunés na cama são mais exigentes. Enfim, eles sacaram que a mamãe e o papai estão com algum plano e isso não necessariamente será bom para eles.

O bom da história é que a nossa querida veterinária Drª. Angélica nos acalmou: "o melhor a fazer é exatamente o que vocês planejaram - deixar os gatinhos em casa mesmo, sob os cuidados de alguém de confiança, já que 6 meses é um período muito curto para submetê-los a tantos desconforto (principalmente às dezenas de horas de voo e também à adaptação à nova casa).

Foi um dos melhores presentes que recebemos, o atestado de nossa veterinária de confiança de que nossos filhotes felinos ficarão bem nesses próximos meses. Ufa! Melhor assim, o coração fica um pouquinho menos apertado. Além disso, parece que eles aprovaram o novo cuidador titular deles: ninguém mais, ninguém menos que o... ... ... Super vovô Miguel!! Eba! Ele faz carinho e brinca com a gente! Além disso, gosta de pôr bastante comida nos potinhos!! Yes! Chega de regime!! Urrulllllll!!! Faremos a maior farra enquanto o papai e a mamãe estiverem fora!! Vai ter balada e muita bagunça todo dia! Yeah!!!

Fiquem bem, felinos! Cuidem-se e não aprontem muito, ok?
Papai e mamãe voltam logo! Bom, agora já podemos pegar as malas, queridos?!