segunda-feira, 21 de maio de 2012

WWE em Raleigh: Uma noite de luta-livre

Quem me conheceu já "velha" certamente não sabe disso mas, quando eu tinha uns 11 ou 12 anos de idade, meu passatempo favorito era assistir aquele combo de desenhos japoneses na extinta Rede Manchete, seguidos por luta-livre. Não lembro quando começou essa tradição vespertina, mas lembro que foi meu pai que me viciou, tanto em Cavaleiros do Zodíaco quando em Super-Catch. No começo eu ficava bastante preocupada, porque parecia impossível alguém sobreviver a tantas voadoras, socos e pontapés, mas já que meu pai disse que era tudo de mentira (e ninguém parecia se machucar muito no fim das contas), eu desisti da misericórdia e resolvi aproveitar aqueles breves momentos de violência fake e grandalhões usando collant.

Daí a Manchete faliu, super-catch sumiu e ficou cada vez mais difícil de ver luta-livre. Depois eu descobri que, as vezes, o canal FX passava algumas lutas da WWE (World Wrestling Entertainment), mas nunca consegui descobrir o dia e o horário para poder acompanhar e, por um bom tempo, me perguntei se ainda existia luta-livre e se alguém ainda assistia.

Eu e Caio em algum lugar da arquibancada da PNC Arena
Qual foi a minha surpresa ao descobrir que aqui nos EUA até que é bem fácil achar luta-livre na TV e, não só isso, mas o negócio todo é um mega-show, com vários eventos especiais disponíveis em pay per view e com uma porção de fãs espalhados pelo país. Mas a melhor parte mesmo foi descobrir que um desses eventos especiais seria aqui em Raleigh e que ainda estavam vendendo ingressos! O Caio (empolgado depois de ver um dos lutadores ajudando a Make a Wish Foundation) decidiu comprar os ingressos naquele dia mesmo e, neste domingo (20/05), lá fomos nós para uma noite de muita luzes, latex e pancadaria no WWE Over The Limit.

Não dá pra descrever fielmente o que acontece ao vivo num evento de luta-livre. Eu tentei tirar fotos para ilustrar a situação, mas sou uma péssima fotógrafa e preferi assistir ao show sem me perder em ângulos e zoom. E que show que foi! Nem algumas das maiores bandas de rock conseguem criar palcos tão iluminados ou fazer entradas tão triunfais ou ainda usar tantos efeitos pirotécnicos quanto o pessoal da WWE (superstars e divas). Sério mesmo, U2 got nothing on those guys no que diz respeito a fazer um mega-show. O público sabia todas as frases de efeito dos lutadores e era impossível não gritar uma delas ao ver aqueles caras gigantes voando pra fora do ringue ou se arremessando em direção ao oponente em manobras aéreas que quase desafiam as leis da física.


Duas coisas logo me chamaram a atenção quando as lutas começaram. A primeira é que, apesar do consenso de que os caras lutam de mentirinha (e de fato os pontapés, socos e cadeiradas não pareciam ser "pra valer") o barulho do ringue denunciava que os tombos que os lutadores levavam eram bem reais e, no fim de uma sessão de voadoras, quedas e arremessos, os caras devem sair bem doloridos dali SIM. A outra coisa é que, pela velocidade, elasticidade e força que esses caras tem, fake ou não, esse é um esporte bastante intenso e DEFINITIVAMENTE não é pra qualquer um que se dispõe a ensaiar uma briga de rua (ver um cara mega-musculoso abrir espacate pra fugir da voadora de outro brutamontes tá longe de ser coisa fácil, na minha humilde opinião).

Agora vocês devem estar perguntando "tá, mas o que teve de luta que foi tão legal assim?" e eu só posso dizer que é mais fácil entrar no youtube ou no site do evento e ver alguns vídeos, que vai ser mais divertido do que ler minha descrição. Todas as lutas foram boas, menos a última, que era justo a que eu mais queria ver, entre o John Cena (o cara com os maiores braços EVER) e o "Gerente Geral" John Laurenitis (o cara mais escroto da WWE). 

John Cena (pontinho verde) e John Laurenitis (pontinho vermelho) no começo do que ERA pra ser a melhor luta da noite...
Era pra ser a típica luta-novela-mexicana entre o Superstar Bonzinho e o Gerente Malvado. Era só o John Cena fazer a alegria da galera e ganhar a luta que o Laurenitis seria oficialmente demitido da WWE, trazendo paz e alegria aos lutadores de boa vontade. Depois de algumas cadeiradas, chaves de braço, lixeiradas e extintorzadas tudo parecia correr bem para o John Cena e 99% do público presente (inclusive  eu). Foi aí que o Laurenitis fugiu e o Big Show apareceu carregando o dito cujo pelo pescoço, com a maior cara de quem queria vingança (afinal o Laurenitis foi responsável por humilhá-lo e demití-lo no último Raw). No entanto, o sonho de ver John Cena e Big Show sacaneando o Laurenitis em conjunto durou pouco e, no lugar de ajudar a socar o Laurenitis, o Big Show deu um direto na cara do John Cena e entregou a vitória pro gerente do mal. E foi assim que eu e 99% dos espectadores saímos do Over the Limit com a maior sensação de incredulidade que é possível ter depois de tantas emoções...

John Cena (sem camisa), Laurenitis (derrubado) e Big Show (de camisa creme e calça preta), segundos antes da maior "pura falta de sacanagem" do WWE Over the Limit...

É claro que o John Cena não ia ganhar e é claro que o Big Show agora será o vira-casaca da WWE. E é claro que isso deve ter sido muito bem ensaiado antes do evento e eu deveria saber de tudo isso porque é isso que eles sempre fazem. Mas o fato é que ali, no meio das luzes, ouvindo dos gritos de fãs e os pulos do ringue, a gente fica com vontade de acreditar que o cara bonzinho vai ganhar sempre. Lá, ao vivo, a gente volta a ter a esperança de que nossos heróis são imbatíveis mesmo quando apanham e é muito bom pensar nisso, porque lá, naquele momento, eu era de novo aquela pirralha vendo TV Manchete no final da tarde e isso foi o melhor da noite!

domingo, 20 de maio de 2012

Parties, meals & pic-nics

Desde nossa chegada em Raleigh, todos têm sido muito receptívos e acolhedores. Logo no meu 1º dia no Depto. de Ciências do Solo, houve uma mobilização enorme para nos ajudar a encontrar nossa futura casa e também itens básicos como talheres, pratos e copos. À medida que as coisas foram se ajustando (e isso ocorreu com uma rapidez que nos impressionou bastante), fomos gentilmente convidados para alguns jantares, pic-nics e festas.
Foto 1: Stephanie concentrada na tarefa de tirar uma das peçinhas sem derrubar a estrutura.

Um desses primeiros eventos, foi a festa de aniversário do Scott. A festa teve como tema os anos 80 e, por isso, o Scott e a sua esposa Stephanie estavam vestidos a caráter: terno com ombreira, cores vibrantes e muitos acessórios de plástico. Além disso, o Scott e a Stephanie levaram para a festa alguns brinquedos e brincadeiras que marcaram a infância deles, como o jogo de equilíbrio com peçinhas de madeira (foto 1) e também a pinhata, uma popular brincadeira em que o objetivo é destruir o alvo suspenso no ar e recheado de doces por dentro, mas só depois que a pessoa que for tentar liberar os doces estiver vendada e um pouco zonza por dar algumas voltas em torno de si mesmo (foto 2).
Foto 2: Ju se prepara para a pinhata enquanto Scott segura o alvo cheio de doces.
Depois dessa festa, foi a vez da Gina convidar a Ju, eu e a Virginia para um jantar na sua casa. Foi um ótimo momento para, além de experimentarmos um delicioso churrasco de frutos-do-mar, conhecermos o Robert, marido da Gina, e o Rufos, o cão de estimação deles. Para preparar o jantar, a Gina e o Robert (foto 3) compraram camarão e tilapia em um mercado asiático em Raleigh, onde dá para encontrar alguns tipos de frutos-do-mar ainda vivos. O Robert preparou um churrasco de espetinhos de camarão, tilapia e legumes que, ao final da janta, não havia nenhuma sobrinha para contar história!
Foto 3: Gina e Robert preparam o jantar que teve frutos-do-mar como prato principal.
Alguns dias depois, o Scott e a Stephanie nos convidaram para jantarmos na casa deles. Para a janta, o Scott preparou uma deliciosa carne de porco, um dos pratos típicos da Carolina do Norte. O porco foi preparado em uma panela que cozinhou a carne bem lentamente, por aproximadamente oito horas. Além disso, o Scott nos serviu uma cerveja feita em casa e que, de tão deliciosa, eu jamais imaginaria que tivesse sido preparada por ele mesmo.
Depois desses dois jantares, foi a vez do "hot-dog day" no Laboratório. Nesse dia, os próprios colegas do laboratório se juntam para preparar o almoço e arrecadar fundos para a festa de fim de ano do Depto.
Assim, no pátio que fica atrás do prédio da faculdade de Agronomia montamos duas mesas e também a churrasqueira portátil usada pelo prof. Rich para preparar as salsichas (foto 4). Além do hot-dog, nosso almoço também teve batata chips, refrigerante e donuts de sobremesa. Bem americano, né?
Foto 4: Prof. Rich caprichando nas salsichas do hot-dog day.
Para terminar, fomos por último a um pic-nic que a Virginia preparou na casa dela para o pessoal da pós-graduação em Ciências do Solo. Além de arroz, feijão, carne e batata assada, a Gina levou uma deliciosa salada preparada pelo Robert e a Erica trouxe suculentos morangos cobertos com casca de chocolate. O pic-nic foi feito no quintal atrás da casa da Virginia, onde tivemos uma ótima tarde e também pudemos conhecer outros estudantes da pós ligados a outros laboratórios.
Como não podia deixar de ser, a Ju aproveitou os momentos finais do nosso pic-nic para brincar um pouquinho com a gatinha que mora com a Virginia. Toda preta com um chumaço branco bem pequeno no peito (foto 5), essa gatinha nos deu mais saudades ainda dos nossos três filhotes que, segundo os relatos dos vovós Cláudia e Miguel, têm aprontando um montão e também andam cheios de chamego com o avós.
Foto 5: A gatinha na casa da Virginia apertou as saudades dos nossos felinos.
Por hora, é isso. Deliciosas refeições (às vezes um pouco diferentes do que estamos acostumados) com ótimas companhias, momentos muito bons e divertidos durante nossa imersão em Raleigh!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

13 de maio: mães, Fátima e escravidão

Eis que passamos mais uma data importante em Raleigh. Depois da páscoa, foi a vez do 13 de maio que, em único dia, reuniu três datas importantes para nós brasileiros: dia das mães (também celebrado nos EUA), dia de Nossa Senhora de Fátima e dia da abolição da escravatura no Brasil.
Quanto ao dia das mães, não teve jeito: o telefone foi a única forma de diminuir ao menos um pouquinho a distância das nossas mamães queridas. Por outro lado, as saudades que a mamãe Ju (foto 1) sente dos nossos três felinos apertou ainda mais, ainda mais quando minha mãe nos contou por telefone sobre as últimas que eles, especialmente o caçula, andam aprontando.
Foto 1: Apesar de curtir um chamego com um dos gatos do Scott, a mamãe Ju sentiu a saudade dos nossos três felinos apertar neste dia das mães.
Mesmo com os corações apertados, aproveitamos o domingo para ir à missa. Aqui tem igreja cristã para todos os gostos. A Ju escolheu ir à missa na simpática e engajada igreja que visitamos na semana passada, a episcopal Church of Good Shepherd.
Foto 2: Ju na Church of Good Shepherd - boas vindas sem exceções.

A missa na igreja episcopal de Raleigh é, de certa forma, bastante parecida com o que costumamos ver na igreja católica. No entanto, uma das maiores diferenças em relação à igreja de Roma reside, por exemplo, na sua postura em relação à orientação sexual dos fiéis. Em Raleigh, a igreja episcopal dá boas vindas a todas e todos (foto 2), independente da orientação sexual de cada um, coisa que na igreja católica é ainda hoje tema de muita polêmica.
Apesar de ser a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo e discordar de postura da igreja católica em relação a esse e diversos outros assuntos, escolhi a Sacred Heart Cathedral para a missa deste domingo (foto 3).
Foto 3: Em um dos vitrais da Sacred Heart Cathedral, Jesus aprende o ofício de carpinteiro observado pelos pais.
Ainda que estivesse cheia (eu e vários fiéis assistimos a missa em pé), a catedral de Raleigh é relativamente pequena (a igreja episcopal, em comparação, tem espaço para acolher quase o triplo de pessoas durante uma missa), o que reflete a pouca expressão que o catolicismo tem nos EUA. Existem muitos católicos de famílias que estão na Carolina do Norte há diversas gerações, mas a impressão é de que há uma porção expressiva de fiéis imigrantes, principalmente mexicanos. De fato, a influência mexicana é bastante forte e, além de algumas missas serem celebradas em espanhol, há também uma imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da Cidade do México. Apesar de ser dia de Nossa Senhora de Fátima, não houve nenhuma menção à Virgem Maria que foi vista em 13 de maio de 1917 por três crianças em Portugal - reflexo da pouca influência que Portugal tem na cultura norte-americana.
Terminadas as missas, nos dirigimos para o North Carolina Museum of History (foto 4), onde entramos em contato com um pouco da história da Carolina do Norte e também dos EUA.
Foto 4: Ju imersa no túnel do tempo do North Carolina Museum of History.
Sendo dia da abolição da escravatura no Brasil, foi interessante ver um pouco da história da escravidão daqui. Como no Brasil, a chegada dos negros nos EUA foi motivada essencialmente pelo trabalho escravo. Mesmo após a abolição, os afro-americanos continuaram a sofrer abusos e segregação de diversos tipos, parecido com o que ocorreu no Brasil. Isso me fez pensar que, independente do lugar, a escravidão foi algo estupidamente violento em todos os aspectos possíveis - físico, emocional, social, econômico, cultural e por aí vai. É bom pensar que, embora as consequências negativas de todo esse processo ainda estão longe de serem apagadas, os EUA elegeram seu primeiro presidente negro. Me parece um passo absurdamente gigante em um continente que ainda tem (temos) muito o que avançar em relação a esse tema.
E por falar nisso, o clima para as eleições nos EUA está cada vez mais quente por aqui. E pelo visto o bicho vai pegar! Mas isso fica para um próximo post! Fui!!!

domingo, 6 de maio de 2012

Who run the world? GIRLS!

Neste 1º mês em Raleigh uma coisa bastante interessante me chamou a atenção. Notei que nos trabalhos de campo do Lab. onde estou trabalhando as mulheres mandam ver!
Foto 1: Gina dirigindo o trator em seu tempo livre.
Pá, enxada, trator e muita poeira: para essas meninas não há problema que seja demais para para-las! Tenho que confessar que ando me empenhando muito para não ficar para trás comendo poeira. A Ju é testemunha de como eu chego quebrado dos campos e de como eu fico com boa parte dos músculos doídos no dia seguinte...
Esses dias, enquanto ainda dávamos uma última mãozinha na preparação dos ensaios da Virginia, nossa amiga Gina (também aluna de mestrado e nascida na Sérvia) aproveitou um pouco da pausa que tivemos para o almoço e dirigiu um pouquinho o trator da universidade (foto 1). "Vou descansar um pouquinho... Deixa eu pensar o que vou fazer... Hummmm... Já sei! Vou dirigir aquele trator ali pra relaxar um pouco"! Coisinha básica...
Foto 2: Virginia jateando sementes de grama.
Bom, mas o almoço daqui é curto. É o tempo de mastigar um sanduíche, mandar meia maçã pra dentro e pronto. Já é hora de voltarmos às atividades. No mesmo dia em que a Gina pilotou o trator, a Virginia fez com as próprias mãos o jateamento de sementes de grama sobre sua área de estudo (foto 2). Conhecida como hidrossemeadura, essa é uma das técnicas utilizadas para realizar o plantio de grama em áreas onde o solo encontra-se exposto e suscetível ao poder erosivo das chuvas torrenciais. Como estava tudo pronto e havia chuva prevista para os dias que estavam por vir, a Virginia fez questão de aplicar um pouco de semente e deixar a área dos experimentos dela bem protegida. Eu fiquei nos bastidores, ajudando a carregar a mangueira enquanto a Virginia andava de um lado para outro para deixar toda a área bem protegida. E posso garantir para vocês: a mangueira está bem longe de ser leve!
Foto 3: Jamie em mais um trabalho do Laboratório.
Acha que acabou? Que nada! Segura porque vem mais trabalho por aí! Na última semana de abril começamos a ajudar na área de estudo da Gina. Além da própria Gina, estiveram na empreitada a Jamie (foto 3), a Kim e eu. A Gina está tentando descobrir qual é o tipo de grama que melhor se ajusta aos solos de uma rodovia que está em construção aqui nas redondezas de Raleigh (NC). Para isso, a Gina plantou diferentes tipos de grama em algumas áreas da construção e tem monitorado o desenvolvimento de cada uma delas. Os resultados do trabalho vão ajudar a determinar o melhor tipo de grama para cada tipo de solo da rodovia em construção e, consequentemente, os construtores pouparão recursos com replantio e, ao mesmo tempo, as taxas de erosão das áreas em obra será muito menores. Vale ou não vale a pena?
Foto 4: Jamie e Kim depois de uma manhã de muito trabalho duro.
Depois de tanto trabalho, houve um momento em que finalmente vi uma ligeira pausa das meninas. Foi em um dia em que nem todos haviam levado almoço para o trabalho (ou seja, aquele sanduba com pasta de amendoim e uma fruta com uma barrinha de cereal). Havíamos acabado os trabalhos de campo da manhã e fomos em busca de algo para comer. Descolamos um almoço em um restaurante italiano e depois, enquanto nos refrescávamos com um pouco de soverte, aproveitamos para dar uma espiada em algumas lojas da região (foto 4). Mesmo parcialmente cobertos com poeira e um pouco de lama, foi um momento ótimo para recuperarmos o fôlego para as atividades da tarde.
Por essas e outras que, durante essa estadia em Raleigh, tem me vindo constantemente à cabeça uma música da Beyoncé em que ela pergunta "Who run the world?", o que em português equivaleria a "Quem manda no mundo?" (veja: http://www.youtube.com/watch?v=VBmMU_iwe6U). Eu respondo, agora com mais certeza ainda: GIRLS!