
Já ouvi algumas pessoas dizerem que não gostam dos livros do Amyr Klink. Outros simplesmente amam. Quem me conhece há algum tempo sabe que já fiz parte do segundo grupo de leitores. Ainda hoje gosto bastante das experiências que ele compartilhou em seus livros, mas atualmente minha admiração pelo Amyr é, pode-se dizer, muito mais sóbria e, talvez por isso mesmo, bem mais sadia.
Reflexões a parte, o fato é que sempre me lembro do Amyr nos momentos que precedem grandes viagens. Para ser mais exato, sempre me vem à mente um trecho do seu livro "Mar sem fim". Antes de entrar no seu barco e partir para a sua circunavegação ao redor da Antártica, ele escreveu que, de certa forma, sentia-se como se já tivesse partido ("de certo modo eu já havia partido").
É um pouco como estou me sinto já há alguns dias. Parte de mim já está nos EUA, em Raleigh, pegando o ônibus da Universidade, fazendo reuniões com meus novos colegas de trabalho (e tentando decifrar o que eles estão querendo dizer), procurando itens básicos para a nossa nova casinha e tantas coisas mais.
Os principais elos que ainda me ligam a São Paulo são as malas, as pessoas queridas e os filhotes felinos. Com a cabeça em Raleigh, me lembro que me esqueci do canivete para cortar um pedaço de barbante durante um trabalho de campo - ótimo: volto para São Paulo, abro o armário e coloco o canivete dentro da mala. Ao mesmo tempo, enquanto a cabeça viaja na maionese de um delicioso hambúrguer genuinamente americano, um amigo liga ou um gato avisa: miau, miau, miau - papai, olha eu aqui! Então me lembro que ainda estou em Sampa e aproveito para ainda rever uma pessoa querida e fazer mais um cafuné nos felinos (um dos últimos dentro dos próximos seis meses). Aliás, é o que eu vou fazer neste exato momento: me agarrar à bola de pelo mais próxima e ouvir aquele delicioso ronronar - aí, que saudades que já dá!
